121 anos de Gregório Bezerra
“O revolucionário comunista Gregório Bezerra preso no Quartel da Casa Forte, após tentar organizar a resistência armada contra o golpe militar. Recife, Pernambuco, abril de 1964.

“O revolucionário comunista Gregório Bezerra preso no Quartel da Casa Forte, após tentar organizar a resistência armada contra o golpe militar. Recife, Pernambuco, abril de 1964.

Há 121 anos, em 13 de março de 1900, nascia Gregório Lourenço Bezerra, na cidade de Panelas, interior de Pernambuco. Oriundo de uma família humilde de lavradores, Gregório começou a trabalhar aos quatro anos de idade, ajudando a família no trabalho agrícola. Ficou órfão ainda criança, perdendo o pai aos sete e a mãe aos nove anos de idade. Mudou-se em seguida para Recife, onde viveu como sem teto, dormindo entre as catacumbas do Cemitério de Santo Amaro. Analfabeto até os 25 anos, Gregório trabalhou como empregado doméstico, carregador, vendedor ambulante de jornais e ajudante de obras.

Gregório participou da Greve Geral de 1917 e da agitação operária em prol de direitos trabalhistas. Tomou parte no mesmo ano de uma passeata em apoio à Revolução Bolchevique na Rússia. Foi preso por subversão e enviado para a Casa de Detenção de Recife, onde fez amizade com o cangaceiro Antônio Silvino. Liberado em 1922, Gregório se alistou no exército, servindo no Recife e no Rio de Janeiro. Alfabetizou-se como autodidata para poder ingressar na carreira militar e foi aprovado em concurso para a Escola de Sargentos de Infantaria. Após concluir o curso em 1926, transferiu-se para Recife, onde travou contato com membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), partido ao qual se filiaria em 1930. Nesse mesmo ano, lutou na Revolução de 1930 – movimento armado que encerrou o pacto oligárquico da República Velha e deu origem à Era Vargas. Dois anos depois, combateu as tropas rebeldes durante o levante contrarrevolucionário articulado pelas oligarquias paulistas.

Alocado em Fortaleza, Gregório organizou uma célula comunista clandestina no interior do exército, mas foi denunciado e transferido para Recife. Na capital pernambucana, passou a recrutar os militares para tomarem parte da Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização de massas vinculada ao PCB e dirigida por Luís Carlos Prestes. Em 1935, Gregório foi incumbido de organizar a rebelião militar em Recife, como parte do Levante Comunista articulado pela ANL. Após o início do levante em Natal, Gregório tentou incitar a sublevação na capita pernambucana, mas as autoridades militares, já cientes do plano, agiram rápido para desarticular o movimento. Gregório se envolveu em uma batalha contra os militares legalistas, que resultou na morte do tenente Xavier Sampaio. Ferido, Gregório chegou a ocupar sozinho uma delegacia de polícia, mas acabou sendo capturado. O levante seria debelado em Pernambuco após quatro dias de luta.

Encerrado o levante, Gregório foi preso junto com seu irmão, José Lourenço Bezerra. Ambos foram submetidos a sessões brutais de tortura e José Lourenço acabou falecendo em decorrência dos maus-tratos Gregório, por sua vez, foi condenado a 27 anos de prisão. Foi companheiro de cela de Luís Carlos Prestes enquanto cumpria parte da pena no Rio de Janeiro. Em 1945, foi beneficiado pela anistia política e posto em liberdade. Nesse mesmo ano, com a legalização do PCB, candidatou-se ao cargo de deputado federal, tornando-se o segundo parlamentar mais votado de Pernambuco. Durante seu mandato, defendeu a extensão do direito de voto aos analfabetos e soldados de baixa patente, lutou pela ampliação dos direitos trabalhistas e apresentou projeto de lei de auxílio às mães solteiras. Também integrou a Assembleia Nacional Constituinte, ajudando a redigir o texto constitucional de 1946. No ano seguinte, entretanto, o PCB teve seu registro eleitoral anulado e em 1948, como os demais deputados do partido, Gregório teve seu mandato cassado.

Uma semana após a perda do mandato, Gregório foi preso no Rio de Janeiro, sob a falsa acusação de ter ajudado a incendiar uma instalação militar em João Pessoa, mas foi absolvido por falta de provas. Nos anos seguintes, Gregório viveria na clandestinidade e ajudaria a organizar o movimento operário e a luta pela reforma agrária no Paraná e em Goiás. Em 1957, sofreu nova prisão, motivada pela acusação de práticas subversivas, mas foi solto após alguns dias por força de habeas corpus. Engajou-se na campanhas eleitorais de Cid Sampaio e de Miguel Arraes para a prefeitura de Recife e para o governo pernambucano, além de seguir atuando no movimento em prol da legalização do PCB.

Após o golpe militar de 1964 e a deposição de João Goulart, Gregório organizou a resistência em Pernambuco e tentou armar os lavradores para defender o mandato de Miguel Arraes. Capturado pelos militares, Gregório foi submetido a torturas brutais. Por ordens do coronel Darci Villocq, Gregório foi arrastado pelas ruas de Recife com uma corda amarrada em seu pescoço, enquanto o oficial instava o povo a linchá-lo, inutilmente. Horrorizados, os populares exigiram a interrupção da tortura, que ocorreu por intervenção do general Justino Alves Bastos. Gregório teve seus direitos políticos cassados por dez anos e foi condenado a cumprir 19 anos de prisão em fevereiro de 1967.

Em 1969, Gregório foi libertado junto com outros 14 presos políticos, em troca da soltura de Charles Burke Elbrick, embaixador dos Estados Unidos que havia sido sequestrado dois dias antes por guerrilheiros do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Banido do território nacional, Gregório foi enviado para o México. Em seguida, dirigiu-se a Cuba e de lá foi para a União Soviética, onde permaneceu como exilado durante dez anos. Mesmo distante do Brasil, foi admitido como dirigente no comitê central do PCB em 1977.

Após a aprovação da Lei da Anistia em 1979, Gregório retornou ao Brasil. Publicou o primeiro volume das suas Memórias nesse mesmo ano. Em 1980, diante da cisão entre Luís Carlos Prestes e a direção do PCB, recomendou a reorganização da cúpula do partido. Diante da negativa, Gregório seguiu os passos de Prestes e desligou-se do PCB, endossando as críticas de que a legenda havia se tornado um partido reformista, excessivamente moderado no trato com o regime militar. Gregório foi um dos fundadores do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e exortou os comunistas a se filiarem à agremiação, sem sucesso. Candidatou-se à Câmara dos Deputados na eleição de 1982, ocupando o cargo de suplente. Faleceu no ano seguinte, em 21 de outubro de 1983, aos 83 anos de idade.”